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Ainda
eram apenas seis da manhã, do alvorar de um dia de inverno ainda escuro e
repleto de nevoeiro, onde se podia sentir ainda, o efeito glaciar da longa
madrugada. Tentei estacionar em observação, o desenrolar do biscate, mas sem
sucesso. Não era fácil encontrar este ardina, que vende jornais gratuitos, no
meio de nenhures. Mas eu consegui encontrá-lo e de muito entediado que estava,
mal me vislumbrou, rasgou logo de imediato um enorme sorriso do tamanho do
mundo, como se quisesse abanar a cauda se a tivesse.
É
que, além de àquela hora ainda não se encontrar vivalma e ainda transparecer a
noite escura cheia de nevoeiro, qualquer encontro ou vulto que se aproximasse,
transformava-se num enorme sentimento, primeiro de medo e depois de alívio.
Era
como o nascer de um inferno assustador acompanhado da visão do paraíso celeste.
Com a minha nova maneira de ser e forma de estar neste momento no mundo, quase
dei com ele por mera cabeçada. Olho apenas para o chão com vergonha dos Homens
e olho o Céu, tentando ver no meio do imenso azul, qualquer sinal de que a
esperança estará prestes a chegar e a certeza de que fé continuará lá no alto.
Este
masculino vendedor de barba mal semeada, de aspeto solitário, mas solidário
para quem quer que fosse que passasse perto da sua áurea, pequena propriedade
repleta dos ditos matutinos, sem tropeçar nos fios de embrulho que se enrolavam
pelo chão, como que serpenteassem a proteção do seu espaço, este pseudo-ardina,
vil projeto de aspirante a profissional da distribuição cultural, este amigo
dentro do desconhecido lugar em que se encontrava, procurava ver mais além dos
seus óculos, como quem tenta encontrar terra à vista no meio de um deserto
aguado...
Um
simples cliente, um simples ser humano, implorava… Ele olhava para todos os
lados, como um reles cachorro à procura do dono, tentando vislumbrar com os
seus binóculos vidrados, mais alguém a menos de meio-metro, que lhe aparecesse
á frente para entregar com ternura e dança, mais um exemplar do seu literário
matutino.
Enrolei
o meu sobretudo à volta do pescoço e enterrei o carapuço até às sobrancelhas,
mas sem querer ser horroroso ou mutante, aproximei-me devagar do ardina e
saquei mais depressa… Estendi a mão, antes da sua oportunidade de me oferecer
o jornal… Não foi capaz de dizer nada, entregou o jornal e tudo me pareceu uma
boa lide, uma boa puxada de capa. Ele ficou a olhar o "touro" a afastar-se enquanto eu movimentava em rodopio, uma boa malga de nevoeiro que fazia espiral, até
desaparecer...
Teria coragem de passar novamente? Queria fazer feliz o dador de
alegrias, o simpático espetador de teatralidades… Aí vou eu, de passo curto,
com a capa no braço e o barrete no bolso, com peito aberto à temperatura
invernal, mas por uma boa causa…
-
Olá bom dia! Então que trás aí hoje?
Esticou
o braço e comentou a frase decorada:
-
É pra dar…
(...)